Os peptídeos já são conhecidos no universo do skincare, presentes em cremes e séruns há algum tempo. Nos últimos anos, porém, ganharam ainda mais destaque por sua relação com processos de regeneração, produção de colágeno e qualidade da pele — e passaram a ocupar um espaço maior também em protocolos injetáveis e formulações mais avançadas da estética.
Ao mesmo tempo em que a ciência avança, novas promessas sobre o uso de peptídeos também surgem nas redes sociais. E é justamente aí que vale separar o que já tem evidência do que ainda está sendo estudado.
O que são peptídeos?
Peptídeos são pequenos fragmentos de proteína — pedaços menores formados por sequências de aminoácidos. O corpo os produz naturalmente, e eles funcionam como mensageiros celulares: cada peptídeo carrega uma instrução específica, indicando à célula o que ela deve fazer.
Dependendo da sua estrutura, um peptídeo pode estimular uma célula a produzir mais de algo, ou modular — ou seja, ajustar — uma atividade que ela já realiza.
Na estética, o interesse por eles está justamente nessas instruções: alguns peptídeos estimulam a produção de colágeno, outros favorecem a cicatrização, a hidratação, o controle da pigmentação da pele ou a resposta inflamatória.
A dermatologista Oyetewa Asempa, do Baylor College of Medicine, explica:
“Eles também atuam como moléculas sinalizadoras, desencadeando processos de cicatrização e reparo celular.”
É justamente essa capacidade de participar da comunicação celular que ajuda a explicar o interesse crescente pelos peptídeos.
Por que os peptídeos estão em ascensão?
A estética tem buscado, cada vez mais, recursos que vão além da aparência da pele e atuam também na sua estrutura — e é aí que os peptídeos ganham espaço.
Alguns peptídeos funcionam como um sinal para as células: eles “avisam” os fibroblastos — responsáveis pela produção de colágeno — para trabalharem mais. É esse estímulo direto que torna o resultado mais duradouro do que apenas cuidados superficiais.
Uma revisão publicada em 2025 reuniu 102 peptídeos usados em cosméticos e mostrou que cada um age de um jeito diferente: alguns favorecem a produção de colágeno e ácido hialurônico, outros atuam na pigmentação da pele, outros têm efeito antioxidante. Os próprios pesquisadores destacam que a quantidade de estudos por trás de cada peptídeo ainda varia bastante — alguns têm mais evidência científica do que outros.
É por isso que os peptídeos viraram tendência na estética avançada: eles abrem a possibilidade de tratar necessidades bem específicas da pele, cada uma com seu próprio mecanismo.
Como os peptídeos agem na pele?
Na pele, os peptídeos funcionam como sinais que estimulam ou ajustam determinadas atividades das células. Os chamados peptídeos sinalizadores, por exemplo, têm um papel de destaque: eles estimulam a produção de colágeno e participam da remodelação da matriz extracelular — a estrutura que dá sustentação, firmeza e elasticidade à pele.
Na prática, isso se traduz em benefícios que vão além da aparência: pele mais firme, com menos flacidez, textura mais uniforme e uma capacidade de recuperação mais eficiente diante de agressões do dia a dia, como exposição solar ou pequenas lesões.
E isso pode acontecer de diferentes maneiras, dependendo da molécula utilizada — cada peptídeo é desenhado para sinalizar um tipo específico de resposta na célula.
Como os peptídeos são utilizados?
Os peptídeos aparecem em diferentes formatos — e a forma como são usados muda bastante o resultado.
Uso tópico: é a forma mais comum. Estão presentes em cremes, séruns e outros cosméticos voltados para o cuidado da pele, agindo na superfície.
Aplicações injetáveis: alguns peptídeos funcionam como medicamentos, usados em contextos específicos — como é o caso da insulina e dos análogos de GLP-1, hoje bastante conhecidos no tratamento de diabetes e obesidade.
Microagulhamento: o GHK-Cu é um dos peptídeos mais estudados internacionalmente em combinação com microagulhas, já que a técnica ajuda a molécula a penetrar mais fundo na pele. No Brasil, ainda não é permitido o uso de peptídeos por microagulhamento.
Cuidados: peptídeo certo, para o paciente certo
Nem todo peptídeo age da mesma forma. Alguns estimulam processos de crescimento, reparação e regeneração celular — e é justamente por isso que a indicação exige cuidado.
Em pacientes com predisposição genética ou histórico de condições relacionadas à proliferação celular, esse tipo de estímulo merece atenção especial. Antes de qualquer protocolo, é importante avaliar se a ação daquela molécula é adequada para aquele paciente.
Por isso, mecanismo de ação, formulação, via de administração, indicação e evidências científicas devem ser considerados antes do uso.
Outras funções: metabolismo e cicatrização
Modulação do metabolismo e emagrecimento
O GLP-1 é um hormônio peptídico que ajuda a regular o apetite e o açúcar no sangue — e por isso virou destaque nos últimos anos. A semaglutida, por exemplo, é um medicamento que atua nessa via e é usado no tratamento da obesidade. Mas é importante lembrar: isso é medicamento, com indicação e acompanhamento médico, não um procedimento estético.
Pós-cirúrgico e cicatrização
Peptídeos como BPC-157 e TB-500 também ganharam popularidade nas redes, associados à cicatrização e recuperação. Só que, até agora, ainda faltam estudos em humanos que comprovem segurança e eficácia para esse uso — a própria FDA já alertou sobre isso. Por enquanto, o que existe são promessas nas redes sociais, não evidência científica sólida.
Afinal, qual é o futuro dos peptídeos na estética?
Os peptídeos estão ganhando espaço porque representam uma possibilidade interessante de trabalhar com processos biológicos específicos da pele.
Para o profissional de estética, conhecer os peptídeos significa entender o que eles fazem, como podem ser utilizados e, principalmente, quando não devem ser utilizados.
No Instituto IESE, inovação e formação caminham juntas: acompanhar as novidades é importante, mas conhecer a ciência por trás delas é o que permite transformar tendência em conhecimento e prática responsável.
Referências
- VAN WALRAVEN, N. et al. Bioactive peptides in cosmetic formulations: Review of current in vitro and ex vivo evidence. Peptides. 2025.
- ASHAOLU, T. J. Applications of bioactive peptides in cosmeceuticals: a review. Journal of Zhejiang University Science B. 2025.
- WANG, L. et al. Overview of Peptides and Their Potential Roles in Skin Health and Beauty. Journal of Peptide Science. 2025.
- U.S. FOOD AND DRUG ADMINISTRATION (FDA). Informações sobre BPC-157 e TB-500.
- U.S. FOOD AND DRUG ADMINISTRATION (FDA). Informações sobre medicamentos GLP-1 não aprovados.


